Resenha de A Hora do Mar (Carlos Sisí)

Sinopse: Poucos dias antes da véspera do solstício de verão, os oceanos de todo o mundo estão cheios de peixes mortos. O fenômeno chama a atenção dos órgãos ambientais, que não encontram explicação. A bordo do navio Vizconde de Eza, um grupo de biólogos e geólogos parte para o Mediterrâneo para fazer uma reportagem, mas acaba presenciando, com horror infinito, uma das experiências mais incríveis de suas vidas.

Ao mesmo tempo, o fundo do mar explode: uma cadeia de terremotos subaquáticos devasta os mares com consequências fatais nas costas. Este, porém, é apenas o início de uma série de acontecimentos que colocarão a Humanidade em xeque ao enfrentar um adversário inesperado: o planeta Terra.


Análise: Quando Isaac Newton disse: “O que conhecemos é uma gota d’água; o que ignoramos é o oceano”, não usou essa metáfora por acaso. Apesar de ser chamado Terra, três quartos do nosso planeta são cobertos por água. A vida surgiu ali e, no entanto, ainda não sabemos muito sobre o lugar onde nascemos e evoluímos até que decidimos nos aventurar em outro mundo, bem menor e mais hostil. Porém, houve quem decidisse regressar às suas águas, sem poder continuar a ignorar as chamas do mar, e regressasse com histórias sobre criaturas tão incríveis que só podiam existir na imaginação dos homens que as contaram. Isto é o que acontece com A hora do marum romance que mergulha o leitor em uma emocionante história inspirada nos grandes clássicos do gênero, como A Guerra dos Mundos (Herbet George Wells), e algumas obras mais contemporâneas, O quinto dia (Frank Schätzing), mas sempre com o estilo único e característico da marca Sisí.

A hora do mar representa a consolidação de Carlos Sisí como o Stephen King espanhol. Tal como o famoso escritor americano, Sisí consegue fazer com que o terror irrompa naturalmente no quotidiano das suas personagens, transformando o seu mundo num complexo pesadelo organizado em níveis sucessivos, em que o medo assume formas cada vez mais grotescas e perturbadoras, como aconteceu em. O caçador de sonhos.
A grande visualidade da sua prosa permite-nos não só colocar-nos nos diferentes cenários onde se passa, mas também captar, através dos restantes sentidos, aqueles detalhes que fazem a história ir além do papel e ganhar vida de é o mesmo. Desta forma, conseguimos perceber a intensa salinidade que permeia o ar e se torna a fragrância que antecede a morte ou, mais importante ainda, o Zumbido que nos persegue incansavelmente, lembrando-nos que o perigo persiste e está em todos os lugares, sem que sejamos capaz de prever quando retornará e de que forma. Ultimato para a terra (Scott Derrickson, 2008), O abismo (James Cameron, 1989 ou Startship Troopers (Paul Verthoeven, 1997), poderíamos ser algumas das referências visuais mais significativas.
Em suma, o universo concebido por Sisí mantém aquela originalidade própria do autor que o diferencia dos demais, permitindo-lhe destacar-se dos demais títulos de ficção.
Outro aspecto que merece destaque são os personagens. Desde a primeira entrega de Os caminhantes, o autor málaga demonstrou a sua capacidade de criar protagonistas com os quais o leitor se identificasse, justamente pela imperfeição que os caracterizava. Diferentemente de outras obras, onde a diferença entre heróis e vilões é perceptível desde os primeiros capítulos, Sisí foca na ambiguidade da natureza humana, mostrando tanto os defeitos quanto as virtudes de cada um. Nesse aspecto, vale destacar o magnífico fragmento de Thadeus em que ele enfrenta o antagonismo de usar seu conhecimento sobre a vida para matar as criaturas que ameaçam acabar com a humanidade; O medo oscilante de Marianne entre a ameaça dos monstros e os próprios sobreviventes; ou a peculiar amizade que se estabelece entre Jonás e Meraldo. Qualquer um deles pode se tornar um herói inesperado, mas também um vilão em potencial. A inclinação da balança a favor de um destino ou de outro dependerá das suas decisões.
E é que A hora do mar Não se trata de uma história única, mas de uma série de subtramas desenvolvidas em diferentes espaços que se inter-relacionam em função das circunstâncias que lhes deram origem. Apesar dessa estrutura narrativa complexa, o leitor não tem dificuldade em retomar os diferentes fios da trama, mantendo o suspense até os últimos parágrafos.
É claro que não poderíamos terminar esta revisão sem mencionar a mensagem implícita nas suas folhas. Embora Carlos Sisí mais uma vez se concentre em entreter o leitor, também procura fazê-lo refletir. Quem teve a oportunidade de crescer à beira-mar pôde ver em primeira mão as mudanças que sofreu, quase todas para pior. Embora o final pareça um pouco abrupto para o meu gosto, não posso negar que Sisí soube apresentá-lo de tal forma que a opinião final cabe ao leitor; Ou seja, uma vez colocado o problema, a solução está na sua decisão, quando você tiver consciência de quais poderiam ser as consequências da sua atitude a esse respeito.
Em suma, aqueles que consideravam Sisi autor de um sucesso único, A hora do mar
quebra essa percepção e o consolida como um dos escritores mais prolíficos do cenário literário atual, não só de terror, mas também de ficção científica e até do recém-surgido eco-thriller. Deixe-se levar por esta história que leva às profundezas da sua imaginação, onde o segredo há muito escondido sob sua superfície lhe será revelado. E lembre-se, se o mar nos deu a vida, também tem a capacidade de tirá-la de nós.
O MELHOR: O primeiro terço do romance, que inclui a introdução dos protagonistas mais proeminentes e alguns dos desastres que antecedem o ataque das criaturas marinhas. A aparência original dos monstros. O equilíbrio da história entre entretenimento e reflexão.
O PIOR: O uso de alguns os temas típicos da ficção científica. Um final abrupto em comparação com o resto da história.

Sobre o autor: Carlos Sisí (Madri, 1971) mora em um apartamento ensolarado em Calahonda com sua esposa e duas filhas. Naquele ambiente luminoso e calmo concebeu, noite após noite, uma Málaga dizimada pelo terror dos mortos-vivos. Não é em vão que ele alimenta sua imaginação há anos com todo tipo de material de terror, de romances a filmes e videogames.


Outros livros do autor:

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