Arte da mudança ou uma situação sem mudança

Muito tem sido escrito e falado sobre esta exposição, então tudo o que eu digo sobre o conceito e as obras nela contidas já parece um esforço inútil. Mas o fato é que isso provoca até a mim, e num sentido realmente contraditório. Durante muito tempo não consegui decidir o que pensava dela, se ela me irritava mais com sua tendência ou se eu gostava do barulho que ela causava e das milhares de pessoas que ela trazia para o salão de festas. SGHHG, da disponibilidade do catálogo anexo. É indiscutível que ela tem mais do que sucesso só por causa disso.

Não vejo sentido em comentar as obras nele contidas, por si só são bastante emblemáticas para este período, por mais estranho que seja fixado no tempo e por mais que algumas delas não se enquadrem no conceito de conjunto, não não importa quantas deficiências notemos. Na verdade, penso que este é precisamente o problema incômodo desta exposição: o período de tempo mal concebido e a pretensão do tema dado, que, assim formulado, implora por algo maior do que aquilo que mostra.

Mas todas estas coisas já foram comentadas, muitas palavras foram ditas, algumas nem tão lisonjeiras, foram escritas muitas linhas que qualquer um poderia ler (para referência em “Cultura”, edição 8 de 27 de fevereiro de 2015). Falou-se sobre qual é o papel do curador, ele é o protagonista quando o projeto está dentro de uma instituição estadual ou municipal, quem é o responsável por substituir a história?

Estou tentando lembrar se exposições anteriores conseguiram gerar interesse semelhante, inclusive na grande mídia, e não consigo pensar em nenhuma. Esse tipo de provocação também é uma forma de despertar a curiosidade de alguém. Para o espectador comum, foi uma exposição interessante, que ouviu de vários lugares que causou polêmica. Para a guilda, porém, continua sendo uma pedra no sapato, porque mais uma vez lembrou ao artista comum que ele não tem lugar na história da arte, nem em tais galerias; que o curador é uma força e sempre tem direito; que a história é escrita pelos poderosos da época e é facilmente substituída quando não há alternativa, quando não se fala de outra arte que acontece incessantemente. Lembre-lhe que ainda existe a divisão insana de campos, unidos em torno de certos círculos curatoriais e grupos de artistas, e que todos os outros que não pertencem a nenhum deles vivem e criam num universo paralelo, do qual ficará uma memória para gerações futuras, não. Lembre-o da futilidade do nosso cenário artístico, do financiamento ao qual ele nunca teria acesso pelas razões acima expostas, de ter que se defender sozinho.

Na verdade, quando olhamos o catálogo da exposição e lemos o texto do curador Maria Vasileva, as coisas começam a parecer mais lógicas. É a partir dele que entendemos qual é o lugar de Svetlin Rusev nesta exposição, uma questão importante que a maioria das pessoas se colocou. Com efeito, à primeira vista isto até contradiz o conceito, mas depois entendemos que o curador define o caso do gaseamento da cidade de Ruse em 1981 como o primeiro que conseguiu provocar a reacção dos artistas, em particular dos acima- mencionado autor, motivar-se através de sua arte para demonstrar sua opinião sobre o que aconteceu ao público e às autoridades. E ainda assim a questão permanece em aberto, visto que este evento é tão importante para a exposição, por que o ano de início é 1985?

A ecologia em geral e este problema, que se tornou doloroso para o nosso país em meados dos anos 80, estão na base precisamente destas primeiras reações através da arte. Seguem-se os tempos turbulentos de mudança política. Mas, novamente, como já disse mais de uma vez, estas reacções não são, em essência, arte política no sentido puro da palavra. Sim, a situação encoraja, mas na realidade os artistas do nosso país sempre foram moderados neste aspecto, sempre abordaram com cuidado e até nos bastidores. Os exemplos são muitos, o mais emblemático dos quais é o “Camaleão” do grupo “A Cidade”, feito de folhetos do Komsomol, que foi assistido por… o próprio Komsomol – DKMS?!

Entre todas as obras, documentação de ações, acontecimentos e performances expostas na exposição, dificilmente encontraríamos algo radical e ridicularizando os problemas políticos ou sociais. Na verdade, trata-se simplesmente de uma seleção de obras com algum enfoque social, feita por um determinado círculo de autores selecionados pela curadoria. Não é nem uma amostra representativa do que foi publicado no catálogo, porque assim não haveria pessoas com 3-4 obras na exposição. Por outro lado, tal projeto não pode pretender ser abrangente, não é essa a sua função, pois há um curador que tem a responsabilidade de selecionar e sempre haverá pessoas insatisfeitas. O problema com A Arte da Mudança é o salto gigantesco que ela dá em direção a uma tese que não é totalmente verdadeira nem testada pelo tempo. A ideia de que em nosso país existem muitos artistas ativos e socialmente engajados que têm empatia com os acontecimentos políticos e vivem para transformá-los em arte para rir, criticar ou ensinar. Tais autores são poucos e muitos deles não estão representados nesta exposição. À custa disso, continuam a circular os mesmos nomes que se tornaram conhecidos pela chamada “mudança”, que ainda é um mito sem fundamento.

* O texto foi preparado para publicação no primeiro número da revista INTERNATIONAL ART RESEARCH & REVIEW

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